Antologia de Poesia Periférica transforma estudantes da rede municipal de Taboão da Serra em autores e revela a potência literária das infâncias da periferia
A publicação da Antologia de Poesia Periférica marca um momento histórico para a educação pública de Taboão da Serra. Muito mais do que reunir poemas produzidos por estudantes dos 4º anos do Ensino Fundamental, a obra registra um processo pedagógico que colocou as crianças no centro da produção literária, valorizando suas histórias, seus territórios e suas identidades. Ao longo de meses de trabalho, professores e estudantes transformaram experiências cotidianas em poesia, fazendo da escola um espaço de criação, pertencimento e expressão cultural.
O projeto envolveu quatro escolas da Rede Municipal de Ensino: EMEB Darcy Ribeiro, EMEB Ester Cordeiro de Souza, EMEB Maria José Luizetto Buscarini e EMEB Vinícius de Moraes, que desenvolveram, em sala de aula, um percurso de escrita mediado pelos próprios professores. A proposta foi simples e, ao mesmo tempo, profundamente transformadora: incentivar cada criança a olhar para sua própria realidade e descobrir que sua vida, sua rua, sua família e sua comunidade também são matéria-prima para a literatura.
Ao contrário de uma atividade pontual de produção textual, todas as poesias nasceram de um processo contínuo de experimentação da linguagem poética. Os estudantes foram convidados a escrever sobre aquilo que conhecem de perto: as vielas, os becos, os escadões, os campos de futebol, as brincadeiras de rua, as mães trabalhadoras, os sonhos, as dificuldades e as esperanças que fazem parte da vida cotidiana da periferia. Ao final desse percurso, cada professor selecionou cinco produções de sua turma, considerando critérios como criatividade, originalidade, expressividade e qualidade poética, formando uma coletânea que representa a diversidade de olhares presentes nas escolas municipais.
A concepção e a coordenação pedagógica da iniciativa estiveram sob a responsabilidade do diretor pedagógico da Secretaria Municipal de Educação de Taboão da Serra, professor André Wagner Rodrigues, idealizador do projeto e organizador da obra. A proposta nasceu da compreensão de que toda criança possui uma história que merece ser escrita, lida e valorizada. A partir desse princípio, foi estruturado um percurso pedagógico que transformou a produção textual em uma experiência de autoria, pertencimento e valorização da identidade periférica. Além de conceber a metodologia do projeto, o professor André Wagner Rodrigues acompanhou sua implementação nas unidades escolares, articulando o trabalho desenvolvido pelas equipes gestoras e pelos professores até a organização da presente obra.
Mais do que ensinar técnicas de escrita, os educadores assumiram o papel de mediadores sensíveis, capazes de transformar vivências em literatura. O trabalho desenvolvido nas quatro escolas foi determinante para que as crianças encontrassem confiança para escrever, compartilhar suas histórias e reconhecer o valor de suas próprias vozes. Ao verem seus textos publicados em livro, muitos estudantes tiveram, pela primeira vez, a experiência de se reconhecerem como autores, percebendo que suas palavras possuem valor cultural, literário e social.
Na EMEB Darcy Ribeiro, esse processo foi conduzido pelas professoras Dayane Francisco da Silva, Karina Aparecida da Silva Ferraro, Audrey Akemi Rodrigues Kanashiro e Ana Paula Jorge Kao. Na EMEB Ester Cordeiro de Souza, participaram as professoras Sirlene Maria Pereira dos Santos, Marlene Vieira Barbosa, Camila Chagas dos Santos e Débora Sales de Oliveira. Na EMEB Maria José Luizetto Buscarini, destacaram-se Ireneuma Souza Cardoso e Arlete Trajano da Silva. Já na EMEB Vinícius de Moraes, o trabalho contou com Elaine Luz Pascoal, Gislene Maria da Silva Hachiba, Josimeire dos Santos Praxedes, Fabiana de Oliveira Simoncine e o professor Jailson Machado da Silva. Cada educador desempenhou um papel fundamental ao estimular a criatividade, acolher as narrativas infantis e transformar a sala de aula em um verdadeiro espaço de produção literária.
O resultado é uma obra que rompe estereótipos sobre a periferia. Nas páginas da antologia, as crianças não escondem as dificuldades que observam diariamente. Elas escrevem sobre ruas esburacadas, desigualdade, violência, racismo, lixo, poluição e desafios sociais. Mas também revelam o outro lado de seus territórios: o orgulho da família, a amizade, o cheiro do café pela manhã, as brincadeiras na rua, as pipas no céu, o amor pela escola, a solidariedade entre vizinhos e a esperança construída pelo estudo. Essa combinação de sensibilidade e honestidade transforma cada poema em um retrato autêntico da infância periférica de Taboão da Serra.
A obra demonstra que a periferia não é apresentada pelas crianças como um espaço definido pela falta, mas como um território de cultura, memória, criatividade e resistência. Os versos revelam um olhar que somente quem vive esses lugares poderia construir. Em vez de reproduzir discursos prontos, os estudantes apresentam uma narrativa própria, mostrando que a literatura também nasce nas vielas, nos bairros populares e nas escolas públicas.
Ao registrar essas vozes infantis, a Antologia de Poesia Periférica ultrapassa o papel de um livro de poesias. Ela se consolida como um documento pedagógico e cultural que reconhece a potência criativa das crianças e reafirma a importância da escola como espaço de formação de leitores, escritores e cidadãos. A experiência também inspirou uma iniciativa legislativa que fortalece a valorização da escrita e da cultura periférica no currículo da Rede Municipal de Ensino de Taboão da Serra, ampliando o alcance desse trabalho para as futuras gerações.
Mais do que revelar novos autores, a Antologia de Poesia Periférica revela uma cidade narrada por suas próprias crianças. Em cada verso há memórias, afetos, denúncias, sonhos e esperança. Ao transformar estudantes em escritores, a obra reafirma que a escola pública é capaz de produzir conhecimento, arte e identidade, mostrando que a periferia não é apenas um lugar sobre o qual se escreve, mas um território que escreve a própria história. São as crianças de Taboão da Serra que, com a força de sua sensibilidade e de sua palavra, demonstram que a literatura pode nascer onde existem escuta, oportunidade e educação comprometida com o protagonismo de seus estudantes.
Lucas Baptista
