Dia-a-dia no acampamento em Taboão da Serra: integrantes do MTST contam com a solidariedade

Solidariedade e ajuda mútua. É assim a vida de quem faz parte do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) que ocupa há mais de um mês um terreno de 85 mil metros quadrados no Jardim Helena, em Taboão da Serra.

A Reportagem do Jornal na Net com intuito de mostrar além do que já foi divulgado decidiu visitar o terreno, acompanhar e conhecer como é a rotina desses munícipes de Taboão e também de outras cidades, que não tem uma casa própria, que muitas vezes passa frio e que sonha em conquistar o “seu cantinho”.

Ao entrar no terreno a reportagem se deparou com a organização das casas e com pessoas humildes de bom coração. O primeiro a conceder entrevista foi o moço Andrei Renan Pires que saiu da casa de seus pais para casar, não deu certo e ele acabou sem moradia. “É tranquilo morar aqui, não sinto frio, tenho meu próprio cobertor e minhas roupas, mas quem tem mais ajuda o outro que tem menos, com alimentação, roupas”, ressaltou.

Segundo eles, cerca de cem crianças que participam do Projeto Ciranda que é desenvolvido pelo setor de educação do movimento, se reúnem três vezes por semana para brincar, desenhar, cantar. “Elas gostam muito e não ficam com fome, pois elas têm direito a três refeições por dia”, comentou.

Muitas crianças e jovens mesmo fazendo parte do movimento continuam estudando, outros pararam como é o caso das duas jovens N.P e T.B, por opção própria. Ambas moravam na rua, pois segundo elas ficaram sensibilizadas com os outros rapazes que não tinham casas. “Viemos morar no movimento após convite da Vanessa (uma das coordenadoras do MTST), pois estávamos hospedados nesse prédio abandonado em frente a esse terreno. Eles (participantes do movimento), nos ajudaram com cobertor, roupas, alimento e lona para colocar em cima da barraca onde moramos”, afirmaram.

Mesmo com a opção de escolha (morar na casa própria ou em barracas) essas jovens em primeiro lugar querem ajudar os amigos e depois possivelmente voltem para a casa de seus pais. T.B contou que às vezes vai visitar a sua mãe. “Sempre vou visitar minha mãe, não moro aqui, só venho às vezes para dar apoio aos meus amigos que ainda não tem a sua casa própria”, justificou.

Nenhuma das duas reclamou das condições em que vivem, muito pelo contrário, afinal elas ressaltaram que é como se estivessem em casa. “Me alimento a hora que quiser, pois aqui tem cozinha, lavo roupa tanto minha quanto dos meninos, ajudo nos afazeres, sempre limpamos a cozinha”, afirmaram as jovens uma com 18 e outra com 14 anos.

A jovem de 14 anos N.P salientou que também está na luta por uma casa própria. “Meu pai bebe muito e grita comigo, não gosto disso, já a minha mãe é surda muda, não avisei para ela para onde eu fui, qualquer dia apareço lá, em um dia que souber que meu pai não está em casa”, contou temerosa.

Vanessa de Souza uma das líderes do movimento contou a Reportagem que a vida no acampamento não é uma coisa fácil. “Muitos sofrem com o frio, mas depois de passar por tantas situações difíceis encontram no movimento a solidariedade. Se alguém está passando mal, o companheiro fica preocupado, um ajuda o outro”, afirmou.

Vanessa explicou que no terreno as ruas foram numeradas contabilizando 21. “Cada rua terá a sua cozinha e banheiro. Costumo a não chamar de rua e sim família 1, 2 e assim por diante”, contou emocionada.

Ela ainda ressaltou que quem possui uma casa própria não pode participar do movimento. “Para acampar precisa ou morar em casa de família que as vezes humilha aquela pessoa, aluguel e jovens que querem começar a vida. Nesta semana 11 jovens acamparam no prédio abandonado próximo ao terreno e pela manhã fui perguntar se eles gostariam de ficar dentro do movimento, eles aceitaram e agora estão aqui, ofereci a oportunidade. Eu penso, se eles não estivessem aqui, o que poderiam fazer sozinhos na rua”, contou.

Vanessa afirmou que a luta continua. “Não temos certeza do que irá acontecer. Sempre que possível vamos procurar vereadores, ir a prefeitura para conseguir uma moradia digna para todos os integrantes do movimento”, contou.

O nome das jovens foi mantido em sigilo para preservar a privacidade de cada uma.

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