“Há 13 anos é a mesma coisa”, desabafa vítima de enchentes em Taboão
Juracy Veríssimo da Silva, 37 anos, costureira. A personagem da vida real que a reportagem do Jornal na Net apresenta a seguir é uma dos muitos taboanenses que passa pelo mesmo drama toda vez que a cidade enfrenta um temporal, como foi o que caiu sobre Taboão da Serra na tarde desta terça feira, (14). A chuva que a cidade enfrentou com cerca de uma hora e meia de duração, veio acompanhada de vento forte, raios, relâmpagos e granizo.
O piscinão do Jardim Cidade Intercap, coberto por lama, mato e lixo em toda sua extensão, já chegava ao seu limite de reserva de água 25 minutos depois do começo da chuva, que só parou por volta das 17h20. O que se viu depois que a água baixou foi um cenário de caos com as ruas das proximidades do reservatório cobertas de lama e moradores limpando a sujeira em suas casas e calçadas.
Foi nestas condições que a reportagem se deparou com Juracy, moradora da Rua Pará, 270, no bairro Cidade Intercap, há 13 anos. Ela concilia o expediente em uma fábrica de roupas na cidade pela manhã, com o trabalho o resto do dia em casa, para complementar a renda, o que a ajuda nas despesas e a criar os quatro filhos, sendo a mais nova de cinco anos.
Às 20h30, momento em que Juracy convidou a reportagem para entrar na casa dela, a água ainda escoava. Na parede da sala, a cerca de meio metro do chão, a marca d’água por secar, mostrava até onde a enchente havia chegado. “Hoje até que foi rápido. Geralmente demora mais”, ironiza. “No domingo mesmo esta rua foi alagada três vezes seguidas”, conta a operária com rodo em mãos.
No próximo cômodo, os sofás comprados recentemente estão protegidos sobre uma cadeira e uma de suas máquinas de costura, que segundo ela não se fabrica mais. É possível avistar no cômodo à frente, no fim do corredor alagado, uma cama sem colchão. “Há 13 anos é a mesma coisa”, desabafa. Há mais de uma década ela contabiliza perdas a cada chuva forte. “Há quatro anos foram três máquinas de costura na enchente. O prejuízo foi de cerca de R$ 6 mil. Hoje tenho quatro outras. Tive de parcelar em dez vezes”, relembra.
Na casa vizinha, no número 280, os vestígios de lixo e mato, a mais de um metro de altura em uma cerca mostram até onde a água chegou. A cena se repete nas demais residências. Juaracy ressalta a vontade de mudar do local, mas teme não encontrar um valor justo para seu imóvel. “Se hoje eu conseguir vender a casa, o dinheiro não vai dar nem pra morar na favela”, lamenta. Ela classifica de absurda a cobrança de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) feita pela prefeitura do município.
“Acredito que o prefeito não deve saber que aqui inunda. Se soubesse não mandaria carnê”, disse. Ela guarda consigo três unidades intactas dos boletos, que ‘se recusa a pagar’. Por volta das 21h duas máquinas e dezenas de agentes, sob o comando de Carlos Senna, Coordenador-Geral da Defesa Civil de Taboão da Serra faziam a limpeza das ruas. De acordo com Juracy, a noite dela também seria bem comprida.
